Para Helena, o tempo parou na tarde de 14 de abril de 2014. Foi o dia em que Lucas, seu único filho, partiu num acidente de moto aos 22 anos. O mundo continuou girando lá fora, mas dentro da casa de Helena, o calendário travou.
O quarto do Lucas virou um "santuário". Nada podia sair do lugar. O par de tênis continuava jogado no canto, exatamente onde ele deixou. A toalha usada continuava pendurada atrás da porta, seca e dura pelo tempo. O perfume, agora vencido, continuava na estante. Helena proibiu que limpassem o pó. "É o pó que caiu enquanto ele estava aqui", ela dizia, num delírio de saudade. Ninguém entrava lá. Só ela.
Todos os dias, Helena se trancava no quarto, deitava na cama dele, cheirava o travesseiro e chorava aos gritos. Ela implorava: "Volta, meu filho! Eu não aceito! Por que Deus fez isso comigo? Eu não te deixo ir!". Ela repetiu esse ritual de dor por 10 anos seguidos. Até que o coração dela, exausto de tanta tristeza, parou.
Helena fez a passagem. A primeira coisa que pensou ao abrir os olhos do outro lado foi: "Vou ver o meu menino. Finalmente vou abraçar o Lucas livre, correndo, feliz." Ela correu pelos campos espirituais, ansiosa, gritando o nome dele.
E ela o encontrou. Mas a cena fez o sangue espiritual dela gelar. Lucas não estava correndo. Lucas não estava sorrindo. Lucas estava sentado numa espécie de cadeira de rodas pesada, feita de chumbo.
Seus braços e pernas estavam presos por correntes grossas, escuras e pegajosas, que se estendiam infinitamente para baixo, como se estivessem ancoradas na Terra. Ele parecia cansado, pálido, exausto.
Helena correu até ele, tentando arrebentar as correntes com as mãos. — Quem fez isso com você, meu filho?! — ela gritou, furiosa. — Que anjo malvado te prendeu aqui? Eu vou falar com Deus! Isso é injustiça!
Lucas olhou para a mãe com ternura, mas com uma tristeza profunda nos olhos. Ele segurou as mãos dela e disse baixinho:
— Ninguém me prendeu, mãe. Não foi Deus. E não foi nenhum anjo mau.
— Então quem foi? Me diz que eu mato!
Lucas apontou para o próprio tornozelo acorrentado e depois apontou para o coração de Helena.
— Foi a senhora, mãe.
Helena recuou, chocada.
— Eu?! Eu te amei mais que tudo! Eu mantive seu quarto vivo! Eu chorei por você todos os dias!
— É justamente isso, mãe — explicou Lucas. — Suas lágrimas de revolta viraram essas correntes. Você transformou meu quarto num santuário de dor e me trancou lá dentro com você. Toda vez que a senhora gritava que "não aceitava" e que "não me deixava ir", a senhora criava mais um elo nessa corrente.
Ele suspirou, tentando mover a perna pesada.
— Eu tentei ir para a luz, mãe. Eu vi os socorristas, vi a Vó Cida me chamando... mas eu não conseguia andar. A senhora me puxava pelo pé. Eu passei 10 anos sentado naquela cadeira no canto do meu quarto, te vendo chorar, sem conseguir te consolar e sem conseguir partir. O seu "amor" virou o meu cárcere privado.
Helena desabou. O choro dela, pela primeira vez, não foi de revolta. Foi de arrependimento. Ela entendeu que o quarto intocado não preservava a vida dele; preservava a agonia de ambos.
Ela abraçou o filho e, naquele momento, soltou. Soltou a posse. Soltou a dor. Aceitou a vontade de Deus. — Me perdoa, filho. Pode ir. Você está livre.
Assim que ela disse isso, as correntes de chumbo viraram pó. A cadeira sumiu. Lucas ficou em pé. Sorriu aquele sorriso que ela não via há uma década. E, de mãos dadas, eles finalmente puderam caminhar. Não para o quarto escuro do passado, mas para a luz do futuro.
O luto é natural, mas a revolta eterna é uma âncora. Manter roupas, quartos e objetos intocados com apego doentio não traz quem partiu de volta; apenas impede que eles sigam em frente. A maior prova de amor que podemos dar a quem morreu é deixá-los ir. Destranque o quarto. Doe as roupas. Deixe o sol entrar. Seu filho não mora nas coisas que deixou. Ele mora no amor que levou.
